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"Não vamos deixar que uma pastilha de silício defina a moral e a ética na era da Inteligência Artificial"

Em entrevista, Berthier provocou profundas reflexões sobre a inteligência artificial, a ética das máquinas e a importância do controle humano sobre os sistemas automatizados.

01/07/2024 às 12h21
Por: Redação
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Camila Rocha Estático ZeroFotografias. Berthier Ribeiro-Neto foi o primeiro funcionário do Google no Brasil - Divulgação
Camila Rocha Estático ZeroFotografias. Berthier Ribeiro-Neto foi o primeiro funcionário do Google no Brasil - Divulgação

Semana passada conversei com o Engenheiro-chefe do Google, Berthier Ribeiro-Neto em um bate-papo incrível sobre IA durante o Minas Summit 2024. O Evento reuniu, em BH, investidores, empreendedores, estudantes, empresários e toda a gama de pessoas interessadas no universo tecnológico e em sua evolução.

As máquinas inteligentes vão substituir os humanos? A ética das máquinas pode ser comparada à ética do homo sapiens? Esse foi um dos mais de 80 debates realizados em seis palcos simultâneos no Minas Summit 2024, evento que aproximou Governo, profissionais, cientistas, professores, empresários, estudantes, investidores e startups durante dois dias, no Minascentro, em Belo Horizonte. Entre os assuntos mais debatidos, a evolução da inteligência artificial como ferramenta ou tecnologia para gerar negócios digitais.

Uma das autoridades mais aguardadas do evento foi o diretor do escritório de engenharia do Google em Belo Horizonte, Berthier Ribeiro-Neto. Formado na Universidade da Califórnia em 1975, Berthier se juntou ao Departamento de Ciência da Computação da UFMG e fez história. Em maio de 2000, ele e mais cinco estudantes fundaram a Akwan Information Technologies e criaram um sistema de buscas revolucionário, o TodoBR, dentro dos laboratórios da universidade. As patentes foram depositadas na Fundep e gerenciadas pela própria instituição.

O sucesso do buscador foi tão grande que os cinco estudantes foram parar na sala do então reitor, professor Francisco César de Sá Barreto. A discussão girou em torno do crescimento do tráfego e da necessidade de escalar a infraestrutura. Tudo poderia terminar ali, mas o sinal verde foi dado pela UFMG, e a Akwan se transformou em uma empresa de sucesso e visibilidade mundial.

Com o suporte incondicional do professor Nívio Ziviani, a empresa recebeu uma oferta de aquisição do Google em outubro de 2004, que foi concluída um mês depois. A Akwan tornou-se um centro de engenharia do Google, e Berthier foi o primeiro funcionário da empresa no Brasil, trabalhando lá por mais 19 anos. Em junho deste ano, ele comunicou sua saída da direção do Google.

Reflexões sobre IA e ética

Em entrevista, Berthier provocou profundas reflexões sobre a inteligência artificial, a ética das máquinas e a importância do controle humano sobre os sistemas automatizados.

A discussão sobre se as máquinas vão dominar os humanos não é nova. A ficção científica e o cinema sempre exploraram esse tema. Desde "O Exterminador do Futuro" até "Matrix", há inúmeras teorias sobre esse dilema. Berthier, no entanto, é enfático: "É fácil separar a ética das máquinas e a ética dos humanos. Onde estão as sementes da ética? Para o filósofo alemão Jürgen Habermas, o código de moral e ética do mundo ocidental está assentado na noção de justiça e de amor - resultados das emoções". Ele completa: "Somos seres altamente emotivos".

As máquinas, por outro lado, são compostas por micro chips de silício sem emoções, e qualquer código de moral e ética que surja a partir dessas máquinas não terá nada a ver com o código humano. Para o engenheiro, não faz sentido a discussão de que as máquinas vão dominar o mundo. "Por que permitiríamos que máquinas tomassem decisões importantes, dado o fato de que elas não possuem consciência ou emoções?"

Berthier destacou a importância de manter o controle humano sobre sistemas automatizados. Em contextos críticos, como o lançamento de armas nucleares, por exemplo, por mais automatizados que sejam, a decisão final ainda depende de pessoas, e não de máquinas. "Por que nós vamos ceder para elas o mundo? Por que vamos deixar máquinas inteligentes tomarem as decisões? Isso não faz o menor sentido. Eu não vejo isso como preocupação", completa.

A importância da linguagem

"A língua é inata e, no mundo atual, existem centenas de grupos de línguas distintas. Temos a língua principal, aquela que usamos no dia a dia, mas também temos outras culturas que são radicalmente diferentes. A cultura dos esquimós difere significativamente da cultura maori da Nova Zelândia ou da cultura das favelas. Embora as línguas sejam muito distintas, a fala é algo comum a todas. Se você é um homo sapiens, você fala”, comenta.

“A língua é uma característica inata dos seres humanos. Não existe língua de homo sapiens que não envolva a fala. Ela é essencial para colaboração, improvisação e até mesmo para gerar respostas de inteligência artificial. Agora, temos ferramentas que automatizam a geração de texto para diversas tarefas, desde produzir textos falados até criar prefácios, comentários e sugestões. A linguagem é o centro de tudo.”

O professor ainda completa: "Mesmo que você tenha todo o aparato trazido pela inteligência artificial, a curadoria das respostas e toda a bagagem adquirida na vida permite que você olhe para aquele texto gerado e fale: “Não é isso que eu quero dizer, deixa eu trocar isso aqui", destaca Berthier.

Legislação trabalhista

A inovação é o que permite que um país cresça, suporte os desafios e crie soluções novas para problemas novos. O Brasil ocupa hoje o 49º lugar no ranking global de inovação, mas ainda investe pouco nessa área. Para Berthier, questões trabalhistas e seus passivos são enormes obstáculos para a inovação, com 95% das startups morrendo devido a problemas trabalhistas e dívidas. "A legislação trabalhista precisa ser revisada para estimular o empreendedorismo. O BNDES deve criar um plano de negócios que incentive o investimento. O ecossistema de inovação precisa florescer naturalmente, com apoio a doutores formados no Brasil e incentivo para que professores acompanhem a jornada de inovação", acrescenta Berthier.

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Alysson Lisboa
Sobre o blog/coluna
Jornalista, mestre em comunicação, coordenador de pós-graduação e professor na PUC Minas.
Acesse o site: www.etcdigital.etc.br e fale pelo E-mail: [email protected]
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